Home News O contador perdeu a cabeça (traduzido por Paulo Braga)

O contador perdeu a cabeça (traduzido por Paulo Braga)

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Foi capturado, era o responsável pela contabilidade da facção rival, conhecido por ter enriquecido bastante com o narcotráfico. Estava no meio do grupo de invasores, todos exterminados nas margens do Chicão, o riacho cheio de excrementos que faz divisa com a parte leste da favela, riacho ao lado do qual, nos dias de calma, os traficantes vendem a droga. Os ocupantes atuais da favela (à espera da oficialização da santa aliança com a facção de Mato Grosso) esperavam, uns deitados no chão, outros com o cano da metralhadora exposto fora da janela de um dos casebres coloridos, apoiados como animais raquíticos sobre as lojas dos revendedores de aves. Esperavam sem surpresa, tinham aguardado a noite inteira, entre whisky e cocaína, a chegada dos inimigos. Houve um deles que chegou a dançar, o longo cano do fuzil bem à vista, ostentando uma falsa calma, uma superioridade ilusória. No coração de todos, fervia o ódio. E quando de manhã chegou o exército invasor, composto de uma centena de soldados valentes, entre eles o ex-contador, o antigo gestor dos lucros da venda de droga, começaram os confrontos, as batalhas na rua do Sol, travessa Florença, na rua Dezessete, na rua Quinze, na estrada do Colibri e, naturalmente, no Chicão.

Os soldados à espreita dispararam centenas de milhares de projéteis que dizimaram os membros do pelotão do exército inimigo, alguns feridos alcançaram o bar no qual estavam escondidos os ocupantes, isto é, aqueles que se apropriaram da favela quando o velho chefe foi encarcerado. Começaram as lutas corpo a corpo, com arma branca, facas, garrafas, a coronha dos fuzis nas cabeças, dentes agudos, dentes postiços, dentes podres nas carnes brancas, mulatas e negras. E tiros, muitos tiros, para todo lado, muitos feridos entre os moradores, entre os honestos trabalhadores da favela, mas os traficantes tinham proibido que se falasse, tinham confiscado os celulares de quem havia tirado fotos para não manchar a imagem, construída com empenho, de amigos, protetores da comunidade.

No Chicão, Carlinhos, o novo chefe, aquele que, segundo Fernandão, o antigo chefe, lhe havia usurpado o poder, venceu o confronto; os vinte, trinta invasores do Chicão (o exército invasor se espalhou pelos diversos bairros da favela e hoje a maior parte está escondida na floresta) foram mortos, felizes aqueles que morreram logo e não foram torturados. As torturas foram em público, entre o bar verde azulado, os revendedores de aves e os mercadinhos com um pouco de tudo aos quais, durante as manhãs e tardes de calma, acorre gente animada, feliz da vida, cheia de vitalidade. Era meio-dia de um dia ensolarado quando as primeiras vítimas foram queimadas vivas diante dos olhos atônitos dos moradores, dos inquilinos dos estabelecimentos adjacentes. Que o exemplo ensine: não se pode rebelar. Regra são regras, quem detém o poder tem o direito de vender a droga. E quem detém o poder é o mais forte e mais cruel.

O antigo gestor, o ex-contador da facção rival gritava a mais não poder, pedia perdão, prometia tornar-se fiel a seus novos patrões, mas não havia nada a fazer. Foi espancado por dois fortões que riam e bebiam whisky (meia hora antes tinham obrigado dois soldados do exército inimigo a cavar as covas em que seriam jogados seus corpos). Os dois expoentes da facção vencedora tinham esbordoado o contador rival, obrigado a ficar de pé no centro da praça, em frente à venda de frango assado que se manteve fechada, apesar de ser a hora do almoço e do apetite da comunidade. O mais magro dos dois atirou-lhe numa perna e ele se ajoelhou, gritando. Caiu. O outro então entregou a um carrasco uma longa cimitarra, verdadeira relíquia, e com um golpe seco ele cortou de uma vez a cabeça da vítima que, como uma cobra, remexia o tronco, se arrastando na areia, enquanto a cabeça mantinha os olhos abertos que imploravam piedade. Nada de piedade, neste jogo vence que a tem de menos.

Os bandidos organizaram uma partida de futebol, ali mesmo, a bola era a cabeça do ex-contador. As traves  dos gols eram as sandálias, eram caixas, eram sacos. Os traficantes vitoriosos chutavam a cabeça ensanguentada do rival de um canto a outro do campinho improvisado. Cientes que ninguém tinha filmado.

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