Home Racconti da Rio de Janeiro Primi capitoli di “Una, Bahia” scritto anni fa in portoghese, inedito.

Primi capitoli di “Una, Bahia” scritto anni fa in portoghese, inedito.

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CONDIVIDI

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É preciso começar de longe, da história de um homem de braços fortes, pernas sólidas, nariz grande e redondo, negro, pai de quatro filhas. È o empregado de um fazendeiro, já colheu os cestos de café, está voltando do campo. Para terminar o dia de trabalho, falta fazer a limpeza dos recipientes de madeira que conservam a farinha, tem que passar o pano no chão e nas tábuas, onde a farinha pousa em cada canto. A esposa, a linda Jasmin, está preparando a mala. “Que está fazendo mãe?” pergunta Maria Bethânia, sua primogênita de cinco anos, “Arrumo as bagagens não está vendo, eu e o papai vamos viajar”, “E por que a roupa do papai não está na mala?”, “Claro que está” diz ela mostrando as duas camisas brancas do marido que colocou de propósito sobre as suas coisas, todas ordenadas e retiradas dos armários da casa, “viu, a roupa do papai está também”. “Mamãe” continua Maria correndo atrás de um fio lógico que está seguindo há tempo, “por que o Seu Thiago falou que papai é chifrudo?”, “Tem certeza que ele falou assim?” responde prontamente a mulher de pele muito clara, os longos cabelos sedosos até a metade das costas, “Eu ouvi dizer assim”, “Você não deve ter entendido bem e agora vai e leva essa faca pro papai, que ele precisa dela pra limpar o depósito da farinha”. A pequena Maria Bethânia está titubeante, não quer se afastar da mãe, ela percebe que está acontecendo alguma coisa grande, imponderável. Mas os filhos têm que obedecer, então pega a faca para levá-la ao pai, antes de partir observa os longos cabelos espumosos da bela Jasmin e os olhos pretos profundíssimos, sempre apaixonados. Esta será a imagem que permanecerá fixa na sua memória, enterrada como uma estaca no chão. A última lembrança de uma mulher desgraçada que num dia de sol abandonou o marido e as quatro filhas, tendo a recém-nascida seis meses. Jasmin fugira com o amante, ele também largara esposa e filhos, aquela grávida, pouco se sabe da trajetória deles, sabemos que viveram numa cidade pouco distante do município de Una. Sabemos que se aventuraram por Minas Gerais e que o amor deles acabou. Jasmin recebeu muitas pancadas e teve outro filho, seu primeiro macho, sabemos que experimentou novos homens. Por fim, sabemos que Jasmin passou por várias vezes na frente da casa da Conceição onde Maria Bethânia foi criada, e apesar de vê-la mais de uma vez sentada na porta, nunca parou para ter com a filha.

Almir, forte negro itinerante, foi obrigado a criar sozinho quatro crianças. Descobriu logo a verdade sobre a fugitiva, mas não quis correr atrás dela, “Se eu os encontrar mato os dois e vou acabar preso” afirmou durante uma discussão, “Qual é o problema, vai te vingar, na cadeia vai ficar dois ou três anos e depois tu sai” comentaram os amigos que não eram muito amigáveis.

Almir bebia, um dia chegou até a pedir a ajuda de um matador profissional que trabalhava para o mesmo dono de terra como cão de guarda, ele perguntou se o amigo podia matar a esposa e o amante. No dia seguinte desmentiu e pediu desculpa, os dois terminaram a discussão na frente do fazendeiro que disse “Almir procura outra mulher, se quiser pega a esposa de João que fugiu com Jasmin e você Gonçalo se preocupe em defender as minhas terras e não escute papo de bêbado”.

O baiano acabou por se casar de novo, conheceu, e foi sorte grande apesar dos primeiros comentários negativos da cidade, Dona Gracinha, mãe de seis filhos, e com ela se juntou.  Agora a família era de dez crianças. As quatro meninas de Jasmin dormiam em uma mesma cama, com as cabeças e os pés alternados para cima e para baixo, quando uma se movia golpeava a outra, provocando consequências incômodas, além disso havia os cheiros, as flatulências noturnas que, se já são uma fraqueza na qual até as damas mais nobres e da melhor sociedade incorrem, que dirá as quatro mulatas sangue do sangue do Almir e os outros seis, jogados nos colchonetes pelo chão.

O homem forte e preto, o grande pai, não parou de beber, não imediatamente, cada fim de semana lembrava da linda Jasmin e então pedia, como obcecado, para o amigo lhe encher o copo. Às vezes caía adormecido, um dia na calçada na frente da parada do ônibus, outro embaixo da marquise da prefeitura, outro na entrada da escola primária, até quando teve a sorte de se deitar perto da igreja evangélica. Aliás, daquela vez não se abandonou no chão, ou seja, ele se jogou mas logo recuperou compostura e entrou no edifício bêbado e arrependido. Estava com um companheiro de garrafa. O pastor evangélico pôs-lhe a mão na cabeça, “Deus vos ama meus irmãos, Jesus vos ama, Jesus é vosso irmão, e vós amais Jesus como ele vos ama, vós amais Jesus como a um irmão?”. Almir precisava mudar de caminho, nele não estava presente o gérmen da autodestruição e aquela era, talvez, uma boa ocasião. Foi assim que se tornou evangélico, junto com Dona Gracinha. O amigo dele, o sujeito que também entrou na casa de Deus, continuou enchendo o copo todos os fins de semana, e hoje dizem que bebe ainda mais do que antes. Dizem que está diabético e com cirrose mas ainda frequenta os botecos mais imundos de Una e se lembra “daquele maluco que vendeu a liberdade por um assento na igreja”, mas dizem também que repete estas frases sem que ninguém o escute, e talvez nele esteja viva aquela coisa a que chamam saudade do velho companheiro de bebida.

 

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Uma vez na igreja Almir se transformou, primeiro largou a garrafa e passou a pronunciar cada vez mais o nome de Deus, “Deus te abençoe, graças a Deus, Deus esteja contigo”. O lado positivo desse jeito de falar é que ele era sincero, ele encontrou um refúgio que lhe deu força e atribuiu sentido a sua existência e a todos os sacrifícios que fez junto com Dona Gracinha para manter dez filhos. Levantava às cinco da manhã, orava, preparava o café para as suas quatro filhas, Maria Bethânia, Nívea, Telma, Judite, sem acordar a esposa, a nova esposa, que não tinha os cabelos sedosos como aqueles de Jasmin, mas lhe queria bem, mais do que Jasmin e estava disposta a dividir a vida com ele, o que não é pouca coisa. Cada evento positivo do seu dia e em geral da sua vida era motivo para oferecer o pensamento ao Senhor e para louvar, “Obrigado meu Deus por este arroz e por este feijão e por este pedaço de carne que nos permite levar para a mesa, obrigado por este dia e pelo nosso futuro que sabemos que, se confiarmos em ti, será o melhor para nós”. Maria Bethânia anuia com o pedaço de carne ainda na boca que emergia da parte interna da bochecha, quase desejando escapar.

Apesar das orações, tinha dias em que o estômago roncava e não havia nada a fazer, Almir pedia a ela para mexer de vez em quando o feijão, mas para não comer porque era o jantar de todos, Maria Bethânia queria obedecer, e o fazia por meia hora quase uma hora, depois de uma hora e meia colhia da panela os melhores pedaços de carne e os devorava. Almir saia de casa muito cedo e se dedicava a suas atividades no campo, semeava quando devia semear, colhia quando devia colher, cortava, quebrava, queimava e adubava. A vida laboriosa dele se media pelas estações, pelas chuvas e pelo vento, além das necessidades econômicas do dono da terra que agia segundo os ritmos naturais, plantava quando podia plantar, colhia quando podia colher. A vida era difícil para Almir, claro, em casa, graças a Deus, conseguiam ter um dinheirinho a mais por meio do trabalho de Dona Gracinha, que vendia hortaliças, frutas e doces na feira da cidade. Mas o baiano não levava uma existência economicamente segura, nem Dona Gracinha, nem os seis filhos de Dona Gracinha, nem tão pouco as quatro filhas de Almir. Com toda razão a grande família começou a viver com mais uma preocupação quando Dona Gracinha ficou grávida. O chefe do grupo era tranquilo, acreditava firmemente em Deus e Deus os ajudaria, ele tinha absoluta certeza, estava convencido disso como estava seguro de que não era justo utilizarem métodos anticoncepcionais, fazer amor tinha como objetivo procriar, e a chegada de um filho era só uma bênção, não era de modo algum maldição. Dona Gracinha, de pele mais escura se comparada à fugitiva Jasmin, menos bonita mas nem por isso feia, era evangélica com fervor, e se fiava devotamente em Deus. De opinião não muito diferente eram os numerosos filhos, para eles o nascimento de um irmãozinho ou de uma irmãzinha era um evento ao qual certamente já estavam acostumados, mas permanecia sempre uma situação especial, sinônimo de febril espera e festa. Nem todos, porém, compartilhavam desta atitude positiva em relação ao nascituro, Maria Bethânia, que amava o pai profundamente e o considerava o único ponto fixo naquele território instável que era o mundo, tinha medo, em primeiro lugar, de perder para outro irmãozinho ou irmãzinha aquela pouca atenção cotidiana que o genitor podia lhe dar, em segundo lugar tinha receio de ver diminuída a sua parte de comida. Arroz, feijão e carne quando Almir e Dona Gracinha podiam se dar ao luxo de comprá-la, pelo menos isso ela queria garantido, estabelecido, e ao contrário, as pouquíssimas certezas que tinha caíam em cima dela como a pobreza. A pobreza era um vento que soprava forte como o Scirocco na Sicília, nas antigas casas patrícias havia um quarto que servia para se proteger quando o vento batia irresistível, a pobreza era assim, manifestava-se e não havia jeito de se opor. Maria Bethânia, Judite, Telma e Nívea quase se esqueciam que eram pobres, depois um dia faltava carne, no dia seguinte também, então, “Somos pobres”, pensavam em uníssono, sem dizer nada entre elas, ou talvez só Maria Bethânia pensava, convencida de que as irmãs concordavam com ela. O juízo da primogênita, que arrogantemente se fazia porta-voz de todas, era expresso da seguinte forma, “Pai, como faremos com outra criança, como faremos para comer todos”. Dona Gracinha escutava e ficava furiosa, bestializada como o Grilo Falante frente à incapacidade de entender de Pinóquio, frente à teimosia do boneco em fazer sempre o que queria, sem escutar quem poderia ajudá-lo,
Dona Gracinha se sentia assim, e gritava à cabeça-dura da Maria Bethânia que devia confiar em Deus, devia acreditar, e devia fazê-lo por bem ou por mal, porque na casa deles não havia lugar para os descrentes.

 

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O baiano acordava todas as manhãs às cinco, bebia um café muito forte, Maria Bethânia, Nívea, Judite e Telma tomavam a dose delas, quase sempre sem leite, às vezes o pai as fazia trabalhar com ele, quem não colhia a quantidade estabelecida de café não jantava, e não era maldade, era espírito de sobrevivência. Ele saía sozinho de casa, alternava a mata com o campo, o dono da terra gostava dele, e Almir já poderia se dar ao luxo de comprar uma bela casinha ao invés de viver no barraco de madeira que dividia com Dona Gracinha grávida e os dez filhos, se não tivesse gasto mais do que a metade dos seus ganhos com Jasmim. “Almir eu vi uma roupa bonita e vermelha lá na cidade na loja do João, você compra pra mim?” dizia, e ele cumpria as ordens sem saber que João era o nome do seu carrasco, sua execução era cumprida semanalmente, a linda esposa dele de cabelo sedoso o traía com aquele esquálido homem de nada, pai de numerosos filhos e dono de uma miserável loja de roupa feminina, “Pobre Almir”, pensava Maria Bethânia, “pobre papai, como aguenta tanta dor?”.

Almir aguentava porque era homem e tinha Deus ao seu lado. Sentia-se justo, não tinha medo, quando o terror o invadia em vez de se desesperar procurava a paz dentro de si, no silêncio, nas orações, rezava todas as manhas às cinco, antes de preparar o café e ir para o trabalho, um dia atrás do outro, assim conseguiu comprar um pedaço de terra e cultivá-lo, plantou um pé de coco, sempre utilizava leite de coco na cozinha quando era ele o cozinheiro, as poucas vezes que o dono da terra lhe dava um peixe era como o último dia do ano, todos os doze ao redor de um fogo. “Este é pra você, este pedacinho é pra você e este outro é pra você”, diziam Almir e Gracinha distribuindo, mas Dona Gracinha não sentia no coração a mesma paz que sentia o marido, porque odiava observar o rosto contrariado de Maria Bethânia. “O que é que você tem Maria?”, dizia ela com calma, gritando enraivecida, “o que é que você tem?”, repetia, “O meu pedaço de peixe é menor do que o da Nívea, eu quero um pedaço igual ao dela”. “Não é verdade”, replicava Nívea, “o pedaço da Maria Bethânia era igual ao meu, só que ela comeu logo a metade e agora fica se lamentando mas está de barriga cheia”. “É verdade Maria Bethânia”, perguntava Gracinha, “que você já comeu o seu pedaço de peixe e está sendo gulosa?”, “Não é verdade”, respondia Maria Bethânia, “É verdade sim”, dizia Nívea, Dona Gracinha enfiava as mãos entre os cabelos, “Meu Deus nos ajuda”, suplicava, e olhava para Almir, pronta para fazer um pedido que há algum tempo andava entre seu coração e seu estômago.

“Almir, quero que Maria Bethânia vá embora”, “Ela não pode sair da minha casa, não posso mandá-la embora, é a minha filha”, “Ou ela ou eu”, “O que é que você disse?”, acrescentou Almir, “Ou ela ou eu”, disse, “Eu não gosto do jeito que ela me olha, não gosto de como ela se comporta, não gosto do que ela fala”, “Você está dizendo só besteiras”, “Você sabe muito bem Almir, você vê como ela me responde, você sabe que ela é mal-educada e que sempre fica te procurando mais do que o necessário, te chama à noite, diz pai, painho vem me cobrir que estou com frio, painho vem tirar a coberta que estou com calor, as outras tuas filhas que dormem na mesma cama não te pedem nada, não te perturbam, só Maria Bethânia fica se lamentando, ela diz que está com frio, depois está com calor, depois a outra noite, Estou com fome painho, se não comer acho que vou morrer, e a gente tinha acabado de comer, um prato para cada um de arroz, feijão sem carne, não tinha mais comida porque não tinha mais nada em casa, Maria Bethânia parece que não entendeu que somos pobres, que não pode ter tudo o que deseja, é por isso Almir que te peço para dar a Maria pra alguém, pra uma pessoa de confiança, me disseram na feira que perto da rodoviária vive uma boa mulher que se chama Conceição, que tem dois filhos e quer adotar o terceiro, ela quer uma menininha mulata, podíamos dar a Maria pra ela”.

Almir ficou calado olhando a vela que eles acenderam, foi ele a acendê-la ou talvez a Gracinha, não lembrava bem, olhava fixo aquela luz intermitente, as lágrimas estavam subindo do coração, do estômago, dos pulmões, das pernas até os olhos. Almir era um homem alto e forte, de cabelo curto, crespo e sem nem um grama a mais de gordura a cobrir o abdômen, era bonito, musculoso, negro. Trouxe as mãos até as pálpebras, pensou que ele já sabia que as coisas aconteceriam desse jeito, no exato momento em que aquela desgraçada da Jasmim o deixou com as quatro filhas, ele sabia, percebeu logo, que mais cedo ou mais tarde deveria abandonar uma delas, entregá-la para outra família ou para uma instituição do governo. Ele sabia, soube-o desde cedo, que não conseguiria criá-las todas as quatro sem a mãe, e isto era ainda mais verdadeiro depois que encontrou a Gracinha que trouxe os seis filhos dela para dentro de casa, ele deveria logo se dar conta de que aquele encontro significava separação. Maria Bethânia era a favorita, a primogênita, ele a entendia quando o chamava para dizer que estava com calor, frio ou fome e na verdade não estava com calor, frio nem fome, só queria que o pai ficasse perto dela, e agia assim porque foi a primogênita, foi a única que recebeu atenções por parte da mãe. Jasmim estava feliz durante aquela primeira gravidez, alegre tomava banho no rio, brincava, sorria daquele jeito encantador e perfeito. “Desgraçada”, exclamou em voz alta Almir esquecendo que na sua frente tinha a Gracinha, depois, em silencio, abanou a cabeça em assentimento, a sua única exigência era conhecer a casa e a família a quem entragaria sua filha, “Tomara que a vida dela se torne decente, que Deus nos ajude Gracinha, que com todos estes filhos o nosso trabalho e os nossos deveres sempre serão infinitos”, “Deus nos ajudará Almir”.

3 Commenti

    • anni ottanta, non bene specificati nella storia, nel senso che ho lasciato un alone indefinito, un poco atemporale ma non troppo

  1. il testo completo è di un centinaio di pagine. Se qualcuno le vuole leggere, mi può girare la mail che gliele invio

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